As coisas que fazem bem

“O pulso ainda pulsa
Hepatite, escarlatina, estupidez, paralisia
Toxoplasmose, sarampo, esquizofrenia
Ulcera, trombose, coqueluche, hipocondria
Sífilis, ciúmes, asma, cleptomania
O corpo ainda é pouco
O corpo ainda é pouco.”

Entre o nascimento e a morte há muito que acontecer e o clássico rock de 1989 dos Titãs traz isso de forma propositalmente crua e visceral. O corpo, como um sistema complexo tende a falhar, estragar, perecer e por mais avançada que seja a tecnologia de alimentos, diagnósticos e medicamentos, continuamos ficando doentes e morrendo. A doença e a morte falam da vida e a vida é uma de duas características que todos nós, seres humanos, compartilhamos. A outra é a enorme ignorância que temos sobre nós mesmos.

Estamos todos vivos e todos nós sabemos muitíssimo pouco sobre nós mesmos.

Sabermos pouco sobre quem somos, causa sofrimento a nós e a outros ao nosso redor e isso nada tem a ver com a quantidade de dinheiro no banco ou os títulos de educação formal acumulados. Pode ser um pouco doído para alguns, mas vale aqui lembrar da sábia fala de Jesus: “[…] E ainda vos digo que é mais fácil passar um camelo pelo buraco de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus.” (Mt 19:22-24).

Viver é nos apegarmos. Quanto mais apegos a coisas ao nosso redor, mais sofrimento, quanto mais refletimos sobre a qualidade das coisas as quais nos apegamos, maiores as chances de vivermos com mais leveza escolhendo melhor com o que nos vinculamos.

Todos concordamos que o corpo que temos não é tudo o que somos. Quando caí e quebrei meu cotovelo recentemente, tudo o que eu era, era a dor no cotovelo, na medida em que fui tratando e a dor foi passando consegui recobrar a consciência e a percepção de outras partes do que sou. A propósito, meu cotovelo vai bem.

O corpo tem demandas, claro. Dor, fome, desejo, impulsos fisiológicos diversos e isso nos causa um impacto emocional, interno, mental.

Sempre estaremos apegados a coisas, pessoas e ideias e algumas coisas nos chamarão muito mais a atenção do que outras. Precisamos disso tudo para nos reconhecermos e não há problema algum nisso. O problema é o quanto as coisas as quais estamos apegados nos trazem mais clareza sobre nós mesmos ou o quanto nos trazem mais confusão.

Como já disse o professor Krishnamacharya: “desapego é apego a outra outra coisa”.

Entendermos quem somos é em um primeiro momento nos lembrarmos que apesar de toda a intensidade do corpo, ele não é tudo o que somos. Há uma vastidão interna da qual o corpo participa minimamente. Um sentimento como a amizade deixa isso bem claro. A amizade é um sentimento que o corpo vive muito pouco. Posso ter uma ótima relação de troca, conversas ricas e valorosas ou ainda simplesmente ficar trocando bobagens de internet com um amigo sem sequer estarmos nos vendo e ainda assim sentir a presença da amizade.

Posso também ler um livro riquíssimo sentado no sofá, ter acesso a sentimentos e emoções diversas sem mover um músculo ou sem encontrar outra pessoa. Sabemos disso, sabemos dessas experiências, mas precisamos nos lembrar sempre. O corpo nesses casos serve como um suporte somente.

Sentir-se bem não pode ser o objetivo da vida, saúde não pode ser nossa meta final. O fim das angústias do corpo e o fim da ignorância sobre quem somos quase nunca andam juntos.

Em yoga fazemos uma distinção clara entre dois caminhos: aquele das pacificações de nossas angústias físicas, mentais, emocionais; e aquele da busca por autoconhecimento de fato. Essa distinção precisa ficar clara, pois é muito fácil nos confundirmos. Quando nos sentimos bem, estamos bem e nada mais precisa ser feito, quando nos sentimos mal, precisamos voltar a fazer coisas para ficarmos bem. Essa é basicamente a regra que a maioria de nós usa para vivermos a vida toda e quando algo mais sério acontece ou quando simplesmente sentimos o peso da idade nos frustramos profundamente.

Temos que ter claro que a meta fundamental da vida não é nos sentirmos bem, é buscarmos entender cada vez mais sobre quem somos.

Nesse exato momento eu não estou totalmente consciente sobre quem sou e tudo o que existem dentro de mim e me leva a viver como vivo e fazer as escolhas que faço. Muitas vezes, quando estou atendendo meus pacientes/alunos me lembro através de suas falas de situações da minha vida que eu não me lembrava mais. Isso acontece em outros momentos também. Quem nunca sentiu um cheiro e se lembrou de algo da infância, ou conversando com um amigo ou vendo um filme se lembrou de algo que havia esquecido completamente?

O que somos agora é o produto de tudo o que vivemos e o que vivemos pauta como agimos.

Buscar se entender um pouco não necessariamente tem a ver com calma e tranquilidade. Se conhecer é fundamentalmente lidar com questões internas que nos trazem angústia. Olharmos para nós mesmos é olharmos para aquilo que nos impede de vivermos com mais liberdade.

Entender-se melhor ajuda a criar mais liberdade, pois passo a ver o que antes me limitava e mesmo que às vezes eu não consiga resolver por completo essa questão interna, saber o que me angustia me ajuda a conseguir lidar com isso quando essa questão estiver presente e então tentar fazer escolhas diferentes daquelas que fiz antes.

A pacificação tem limites, o autoconhecimento não.

Temos que ter claro que algumas coisas requerem tratamento, cuidado, atenção. Por exemplo, ir ao médico, fazer acupuntura, conversar com um terapeuta sobre as angústias do trabalho ou das relações familiares são métodos de pacificação, não de autoconhecimento. Os métodos de pacificação têm limites. Posso ter uma questão física que nunca será curada e morrerei com ela. Ou ainda, posso ter algum traço de personalidade, algo interno que talvez eu nunca consiga mudar. Em última instância, eu fatalmente ficarei doente diversas vezes ao longo da minha vida e por fim morrerei. Não há pacificação para isso, não há tratamento que resolva de vez essas questões.

Por outro lado, conhecer a si mesmo é algo que pode ser feito em todos esses momentos pela vida toda, nos momentos de alegria e de tristeza, de raiva e paixões. Cada situação da minha vida mostra pedaços meus que antes eu não via sem tais circunstâncias.

Olhar para dentro e reconhecer questões que antes não eram vistas pode ser doloroso muitas vezes, mas sempre nos traz mais liberdade e isso é mais importante do que buscar a satisfação dos meus desejos. Para o yoga o que nos aprisiona e limita não são questões externas como o governo, o trabalho ou a família, são questões internas, são a forma como me relaciono com o mundo.

Não confundir pacificação com autoconhecimento é, portanto saber a aplicação correta de ambos.

E por que a meta da vida é o autoconhecimento? A resposta pode ser simples. Olhar para si mesmo facilita a vida. As angústias que surgem ao olharmos para nós mesmos não se comparam aquelas que podem surgir por não olharmos. Nunca sabemos as novidades que a vida nos apresentará, logo, procurar evitar as angústias que ainda não vieram é no mínimo uma estratégia inteligente. Como sabemos que simplesmente satisfazer nossos desejos não resolve nossas angústias, que possamos então olhar mais para como funcionamos.

Discernir entre pacificação e autoconhecimento é saber que eu inevitavelmente precisarei colocar o caminho de autoconhecimento como algo estruturante na minha vida, não como mais uma atividade do cotidiano, as atividades que me fazem bem entram no campo das pacificações.

E o que tenho para conhecer em mim? Afinal, muita coisa pode ser colocada no campo das pacificações: livros, cursos, grupos de estudo, etc.

Preciso ir em busca daquilo que é anterior as modificações temporárias da realidade ao meu redor e da minha própria realidade interna. Qualquer caminho sincero considerará isso.

Que parte minha é essa que me leva a me reconhecer como o mesmo indivíduo durante toda minha vida? Se existem questões em mim que estão presentes desde sempre, afinal, para mim eu sempre existi, de onde elas vem, como se constroem, como posso modifica-las?  Esse caminho precisa considerar quem sou hoje, mas também que fui e quem sempre serei. Precisa me ajudar a identificar os sintomas das minhas angústias mais profundas, suas causas, seu fim e os meios para seu fim.

É preciso encontrar um caminho que apresente um modelo de compreensão da realidade e que traga mais liberdade. Não uma verdade estanque, rígida, dogmática, mas algo que apresente uma proposta de longo prazo que me ajude a entender quem sou. Todo o restante poderá ser colocado sob este guarda-chuva. Para mim, esse guarda-chuva é o yoga.

Posso ir ao médico, a algum tipo de terapia, fazer uma viagem, ler um livro, conversar com terapeutas de outras áreas ou campos de autoconhecimento. Quando faço isso entendo que meu paradigma fundamental é o yoga e todas os outros caminhos ou técnicas posso acomodar sob esse guarda-chuva. Saber qual o caminho que estou trilhando me permite olhar para outros caminhos com tolerância, tranquilidade e respeito pois sei que meu caminho não é o único ou o melhor, é simplesmente aquele com o qual me identifico.

Dessa forma, posso também recorrer a diversos outros olhares terapêuticos sem ter a expectativa de que o yoga deva resolver todas as minhas questões pois sei qual o papel do yoga e se eu precisar de alguma técnica específica de pacificação, poderei me valer dela sem conflito algum.

 

2020-11-22T17:42:54+00:00 novembro 22nd, 2020|Categories: Yoga na Vida|Tags: , , , |0 Comments

Leave A Comment