Ignorância e reconhecimento do Eu

O conhecimento profundo de quem realmente somos se coloca como um aprofundamento do conhecimento superficial e confuso de quem achamos que somos. Não se trata de conhecimento correto e ilusão, pois mesmo o conhecimento superficial encerra em si um certo nível de realidade. É como dizer que a sombra não é real pois representa somente parte da realidade do objeto. O reconhecimento superficial de quem somos é real, não um engano ilusório e em sua realidade aponta a direção do conhecimento mais profundo do ser. Só alcançamos o conhecimento de quem somos em profundidade reconhecendo nossas dores e limitações.

Entender aquilo que é mais profundo em nós e o que é superficial, o que é duradouro e o que é temporário, o que é estruturante e o que é estruturado, pode ser compreendido como um processo de amadurecimento que vai desde o reconhecimento de que a realidade externa muda constantemente e que muitas vezes não temos controle algum sobre essas mudanças até o reconhecimento de que nós mesmos também mudamos e em nossas mudanças interferimos em um mundo permeado pela instabilidade.

No Yogasūtra (o principal texto de yoga) o autor diz sobre as mudanças:

“Com discriminação e uma visão precisa, o sábio vê [o potencial de] sofrimento inerente a todas as coisas, devido à natureza dolorosa das mudanças, aos arrependimentos, aos condicionamentos e as mudanças constantes das qualidades da mente”. Yogasūtra II.15

Explicando em detalhes o verso acima, temos:

  • Mudanças (pariṇāma duḥkha) –  Afeta pessoas, objetos e o ambiente. Nada no universo é estável e as modificações sem fim causam irritação, instabilidade e um desconforto interno.
  • Arrependimentos (tāpa duḥkha) –  Nos arrependemos do que fizemos ou do que gostaríamos de ter feito. Temos um desejo ardente por repetir experiências do passado seja para vivê-las novamente seja para corrigir algo.
  • Condicionamentos (saṁskāra duḥkha) – Boa parte do que somos é formada simplesmente por condicionamentos ou comportamentos automáticos. A cultura, a linguagem e até mesmo a forma como pensamos derivam de condicionamentos adquiridos.
  • Mudanças da mente (guṇa vṛtti virodha) – A instabilidade da mente e seus conflitos constantes levam ao caos, ao pensamento negativo e a reações impróprias.

O sofrimento (duḥkha) em todas as suas formas, brota da dificuldade que temos em olharmos para nós mesmos e compreendermos o que somos. A medida em que sofremos, nos identificamos com o sofrimento o que gera mais sofrimento em uma espiral sem fim, até que voluntariamente possamos interferir nesse padrão.

Os motivos pelos quais sofremos podem estar totalmente ativos e seus efeitos serem evidentes, podem ter uma manifestação moderada com efeitos ordinários ou ainda estarem levemente presente com efeitos sutis ou imperceptíveis.

E qual o efeito final dessas inumeráveis formas de sofrimento?

Impulsos negativos como violência, agressividade, tristeza, que desempenhamos contra nós mesmos, encorajamos, provocamos ou apoiamos contra o outro estão baseadas em raiva, possessividade ou julgamento incorreto. E podem se manifestar de forma leve, moderada ou poderosa. Seus resultados são a ignorância e o sofrimento. Consequentemente, é importante cultivar um estado mental oposto a esses sentimentos.” Yogasūtra II.34

O caminho de yoga nos diz que quanto mais sabemos sobre nós mesmos, mas chances temos de prever nosso próprio comportamento e assim evitarmos de nos colocar em situações desconfortáveis. Nem sempre é possível termos total clareza sobre cada ato, as vezes um condicionamento está tão profundamente enraizado em nós que ou não temos consciência dele ou não conseguimos controlá-lo quando se manifesta. Nesses casos o yoga nos diz que:

“O sofrimento que ainda não veio, deve ser evitado.” Yogasūtra II.16

O sofrimento pode ser evitado conhecendo mais sobre quem somos e reduzindo nossas expectativas com os resultados de nossas ações.

Uma reflexão bastante objetiva sobre o sofrimento pode nos levar à seguinte conclusão: se eu começar a investigar tudo o que me causa sofrimento, em algum momento devo chegar a uma origem, um ponto de onde brota toda dor que se divide em miríades de possibilidades. Tudo o que pode ser percebido tem uma origem, eu ao menos tenho uma origem já que em algum momento eu nasci. Pois bem, a essa questão o yoga responde:

“A causa daquilo que deve ser evitado é a associação entre aquele que percebe e aquilo que é percebido.” Yogasūtra II.17

“A união [entre aquele que vê e aquilo que é visto] funciona como um catalisador para a compreensão da verdadeira natureza das duas energias: daquela que é o mestre e daquela que é seu servo.” Yogasūtra  II.23

“A causa dessa [conjunção] é a compreensão errônea.” Yogasūtra II.24

Aquele que percebe, o observador, é chamado Puruṣa. O campo de observação, a realidade, aquilo que existe para ser percebida é Prakṛti.

Puruṣa é nosso centro é a própria vida em nós é a porção que se retirada, a vida deixa de existir, é nosso potencial de visão clara e lúcida da realidade, é sem atributos, não é bom nem mal, sem começo ou fim, não está em nenhum lugar do nosso corpo mas ao mesmo tempo pode ser percebido em todo ele. Puruṣa é simplesmente uma presença que é.

Prakṛti é tudo aquilo que pode ser percebido por qualquer meio de percepção, é todos os nossos atributos, qualidades, medos, desejos, vontades, tudo o que é bom e ruim em nós. É o corpo, as emoções e pensamentos, objetos, animais, planetas, tudo.

A Prakṛti é formada por sattva, rajas e tamas (os guṇa-s) ou os atributos que formam a natureza em toda sua diversidade em combinações e intensidades diferentes.

Sattva representa as qualidades de clareza, lucidez, luminosidade.
Rajas trata das qualidades de ação, atividade, movimento, dor.
Tamas representa a imobilidade, inércia, solidez, torpor.

Puruṣa sem Prakṛti não possui os meios para experienciar a realidade e Prakṛti sem Puruṣa é só matéria, sem vida. Os sūtra-s abaixo deixam mais clara essa relação entre Puruṣa e Prakṛti.

“Tudo o que é percebido inclui não apenas os objetos externos mas a mente e os sentidos. Eles compartilham três qualidades: inércia, atividade e clareza. E tem dois tipos de efeitos: expor “aquele que percebe” às suas influências ou proporcionar os meios para fazer a distinção entre eles e “aquele que percebe”. Yogasūtra II.18

“Tudo o que é percebido está relacionado porque compartilha as três qualidades.” Yogasūtra II.19

“Aquele que percebe não está sujeito a quaisquer variações. Mas percebe sempre por meio da mente.” Yogasūtra II.20

Tudo o que percebemos, fazemos através da mente, logo, a qualidade da percepção será afetada pelo estado da mente. Sabemos que nossa mente não é como um diamante completamente transparente, ela é mais como um vidro todo colorido que permite a visão do que está do outro lado, mas uma visão colorida pelas cores do vidro.

Temos então que limpar esse vidro.

 

O engano

A compreensão correta e a compreensão enganosa ou superficial se processam na esfera de Prakṛti e é em Prakṛti que precisam ser compreendidas. Esse processo de discriminação é chamado viveka.

“Os meios para a cessação do engano repousam na completa e serena discriminação (viveka) entre aquele que vê e aquilo que é visto”. Yogasūtra  II.26

O vidro da mente é colorido pela confusão que surge da associação entre Puruṣa e Prakṛti quando nos perdemos entre o que de fato somos e o que são as cores do vidro através do qual olhamos. A isso chamamos no yoga de avidyā, ou o grande obstáculo que temos à percepção clara.

Avidyā, ou compreensão enganosa ou superficial é o engano que temos sobre quem somos ao nos identificarmos mais com a mente, suas cores e os objetos que a atraem do que com a estabilidade e imutabilidade de Puruṣa pois, como vimos no começo desse texto, tudo muda o tempo todo e isso gera sofrimento.

Avidyā se desdobra em asmitā (egoísmo, identificações), rāga (desejos, apegos), dveṣa (aversão) e abhiniveśa (medo). Avidyā e suas ramificações pautam quase que a totalidade de nossas reflexões e são poucos os momentos em que não estamos vivendo a partir dos apegos e aversões gerados pela forma como nos identificamos com o mundo.

No final das contas, são avidyā e seus filhos nosso foco na prática de yoga. Todo o esforço de mudança daquilo que pode ser mudado e aceitação de tudo o que não pode ser mudado no momento, se refere a avidyā. Evitar o sofrimento que ainda não veio é reduzir a intensa identificação com os apegos e aversões. O discernimento de viveka é entender o que é avidyā e o que não é.

Todas as técnicas de yoga, todas as práticas, as meditações, reflexões, posturas, respirações tem por fim reduzir avidyā para que possamos reduzir nossos enganos e experienciar nossa mais profunda natureza, a verdadeira presença de Puruṣa.

2019-05-16T16:01:54+00:00 maio 16th, 2019|Categories: gunas, Prática de Yoga, Puruṣa, Yoga na Tradição de Krishnamacharya|0 Comments

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