Nossa busca sem fim

Toda nossa vida é uma busca. Quando bebês buscamos pelo peito de nossas mamães com o alimento, crescemos um pouco e buscamos pela liberdade de andarmos para onde desejamos, mais um pouco e buscamos por nos fazermos entender e assim passamos por toda a infância e adolescência refinando nossos desejos e nossas buscas. Na fase adulta, buscamos pelo emprego ideal, pela companhia ideal, pelas condições ideais que nos permitirão alcançar um determinado patamar que permitirão viver a vida ideal.

E o que é esse ideal, ele existe realmente?  Esse ideal só existe em nossas mentes simplesmente por não poder ser alcançado pois se fosse, deixaria de ser ideal já que a o vivenciarmos, constataríamos sua impossibilidade em nos trazer felicidade por 4 razões:

1 – Tudo muda o tempo todo no mundo, nada é permanente na realidade e a simples mudança das coisas nos causa aflição, irritação, instabilidade interna. A isso chamamos pariṇāma-duḥkha.

2 – Somos afetados por sentimentos como amargura e arrependimento com relação a o que fizemos e o que não fizemos. Temos um forte desejo em repetir experiências do passado e emoções como essas nos causam ansiedade e podem nos derrubar. A isso chamamos tāpa-duḥkha.

3 – Somos formados por condicionamentos e ações que desempenhamos de forma mecânica que nos levam a agir de forma estereotipada, o que acaba nos levando a sofrer. A isso chamamos saṁskāra duḥkha.

4 – Por fim, a constante alternância dos nosso humores o que nos leva em algum momento a pensamentos negativos, julgamentos e respostas inapropriadas que nos fazem sofrer. A isso chamamos guṇa-vṛtti-virodha.

Nesse cenário de mudança constante, como podemos buscar algo como um fim? Como podemos saber qual é nossa busca de fato? Ao longo de nossa vida, as coisas que buscamos mudam e muitas vezes perdemos o interesse por aquelas que alcançamos. Para o desempregado, a busca por emprego é seu foco, o ideal do emprego lhe traz felicidade. O problema é que, junto com o emprego vem o chefe!

Se olharmos para nossa história, facilmente perceberemos que nossas buscas nunca nos trazem a felicidade plena e quando trazem, é mais relacionada a uma satisfação temporária de um desejo que ao satisfeito tem grandes chances de se transformar em frustração ao mesmo tempo em que já é substituído por outro desejo, quase que imediatamente. Como a velha história da pessoa que compra um carro zero, satisfaz um desejo e no momento em que sai da loja passa a desejar um modelo melhor que viu passando pela rua.

Buscamos por um ideal de felicidade última nas coisas da vida porém, tudo o que elas podem oferecer é uma satisfação dentro de uma bolha determinada de realidade. Por exemplo, me sentir feliz e alegre com minha filha não necessariamente me fará me sentir feliz e alegre em uma reunião de trabalho de duas horas que poderia ter sido resolvida com um e-mail.

Esse panorama nos mostra que existe algo errado em nossa busca pois se nas coisas da vida não há possibilidade de encontrarmos a felicidade permanente mas ainda assim seguimos buscando, o que é essa busca incessante, essa modo de vida constantemente desejante?

A busca é incessante pois temos toda nossa atenção voltada para fora. Olhamos para as mudanças externas através das nossas mudanças internas. Não fomos ensinados a olhar para dentro, nos entendermos, sabermos quem realmente somos para então entendermos nossa busca. Ao invés disso assumimos padrões, regras, condicionamentos externos que nos são impostos e a partir disso estabelecemos nossa busca. Preciso estudar muito, ter um bom emprego, casar, ter filhos, um carro (pelo menos), casa, viagens, uma boa aposentadoria e um plano funerário. Fim.

Se vamos sempre fazer esforços, é preciso que esses esforços sejam feitos de forma inteligente. Se não sabemos claramente quem somos, as chances de que uma boa parte dos nossos esforços apontem em alguma direção equivocada é enorme. É importante olharmos para nossa individualidade como olhamos para um agrupamento de pessoas que trabalham juntas, como em uma empresa onde, por mais que cada pessoa desempenhe uma função, existe um corpo administrativo central que delibera as decisões. Em nós, se não soubermos qual o nosso centro de tomadas de decisões, agiremos sempre de acordo com os impulsos mais fortes, preponderantes no momento.

É como a história da grande mansão onde o dono da casa viajou e não deixou ninguém encarregado de coordenar os outros funcionários. Em um momento o jardineiro assume e decide que os outros funcionários devem se dedicar mais ao jardim, em outro a cozinheira assume e todos vão para a cozinha ajudá-la, em outra o motorista, e todos vão ajudar a lidar com os carros. Assim vivemos.

Buscar descobrir e entender esse centro é buscar entender tudo o que somos e o que não somos e é essa busca que realmente tem chances de nos trazer felicidade de fato pois do contrário, nos manteremos sempre vinculados ao sofrimento das satisfações temporárias.

 

Foto de Jack Hawley do site Pexels

2019-04-26T06:00:00+00:00 abril 26th, 2019|Categories: Sem categoria|Tags: , , , |0 Comments

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