O esforço na prática de yoga

Todos fazemos esforços e fazemos todos os dias. Muitos precisam acordar cedo para trabalhar, outros depois de um dia de trabalho ainda vão para faculdade, outros precisam cuidar da casa e dos filhos ou tantas outras formas de atividades e esforços. O fato é que nos esforçamos todos os dias.

O yoga deve ser entendido como um processo de autoconhecimento e um processo que requer esforços como qualquer outra coisa a qual nos dedicamos na vida. Se tenho hábitos que considero que são ruins para mim, devo me esforçar para entendê-los e mudar o que for possível ser mudado. Se entendo, por exemplo, que minha alimentação ou minha rotina de sono não estão adequadas dentro do que eu gostaria, é necessário um esforço para mudá-las.

O caminho de autoconhecimento em yoga será pautado por dois grandes atributos de onde muitos outros derivarão: abhyāsa e vairāgya, onde abhyāsa é a prática diligente, disciplinada e vairāgya denota a ideia de ausência de paixão, um certo desapego. Ou ainda, uma reflexão constante e inteligente sobre o que espero alcançar com esses esforços e onde devo colocar minha atenção: no esforço e não na expectativa.

Dentro desse olhar amplo de abhyāsa e vairāgya, a prática constante de yoga requer um esforço reflexivo. Para praticar as posturas de yoga é necessário um esforço, porém esse esforço deve ser medido em sua dose correta para que não leve ao apego e ao desejo por resultados superficiais e passageiros como por exemplo praticar as posturas (ou asanas) simplesmente esperando conseguir praticar posturas cada vez mais difíceis. Preciso entender as posturas dentro de um contexto mais abrangente sobre qual seu papel no caminho de autoconhecimento de yoga. Os ásanas são o autoconhecimento do corpo. Se não entendo isso, me apego a o que é evidente e acabo querendo praticar sempre posturas cada vez mais complexas e difíceis em uma sequência de desafios, como no esporte. Se por outro lado consigo me desvencilhar um pouco disso, consigo ir além e tenho a oportunidade de começar a entender meu corpo em níveis de profundidade como eu não entendia antes. E isso não necessariamente quer dizer que eu não farei posturas complexas, mas sim que se as fizer, será com um grande nível de aprofundamento e reflexão. Existe abhyāsa e existe vairāgya.

É compreensível que somente essa relação entre abhyāsa e vairāgya não resolva por completo uma possível reflexão sobre qual o esforço correto, afinal, é muito comum acharmos que não estamos nos esforçando o suficiente mesmo quando estamos exaustos. No meio corporativo virou até piada em entrevistas de emprego o candidato, quando perguntado sobre sua maior falha, responder “sou perfeccionista”.

Nos falta parâmetros para refletirmos sobre o esforço.

Entre as diversas formas de responder essa questão sobre o esforço correto, proponho uma resposta em diversos níveis de profundidade.

Toda atividade na qual me engajo recebe uma certa dose de convicção ou crença de que isso me trará o que desejo. Trabalho, pois, entre outras coisas, quero meu salário no final do mês e acredito que receberei. Se acredito, me esforço pela recompensa e pelo esforço crio um comprometimento com o trabalho.

É como a história do funcionário médio de uma empresa com 5.000 empregados que no sábado à noite em um bar comenta com os amigos que “nós mudamos nossa atuação no mercado”. Acredita, produz e veste a camisa.  Essa reflexão (em sua forma seminal), quando voltada para o autoconhecimento me coloca em um caminho de maior reflexão sobre minha realidade interna (diferente do mundo do trabalho, onde há um claro engano!): confio que o caminho que escolhi pode me dar o que procuro, me esforço e me mantenho comprometido com o esforço. Devemos, portanto, usar a confiança (śraddhā), o esforço (vīrya) e o comprometimento (smṛti) que já estamos acostumados a usar para as coisas do cotidiano, agora voltados para nossa realidade interna e que agora se volta para o único objeto que teremos todo o tempo da vida para conhecer – nós mesmos.

Porém, o yoga reconhece que não navegamos em águas calmas e mornas a vida toda, sabe que possivelmente seremos atingidos por tempestades e até navegaremos por águas repletas de tubarões e isso certamente afetará a qualidade dos nossos esforços.

Por reconhecer a natureza de transformação da realidade e da grande tendência da vida ao sofrimento, o yoga nos apresenta os 9 possíveis obstáculos (antarāyā-s) que teremos em nossa caminhada e que apesar de serem reconhecidos como obstáculos à primeira vista, nos ajudarão a entender com mais sensibilidade nosso relacionamento como a prática de yoga e a forma como nos dedicamos ao nosso caminho. São eles: doença, fadiga mental, confusão e dúvida, pressa, preguiça, vícios, dificuldade em ver outros pontos de vista (fanatismo), impaciência e inabilidade em permanecer no ponto alcançado.

Muitas vezes as doenças podem nos dar bons indicativos de erros que cometemos no cuidado com nossa saúde; a pressa nos conta sobre nossa ansiedade, nossa preocupação exagerada com resultados; os vícios sobre nosso relacionamento com nossos sentidos ou a impaciência sobre como lidamos com nossos afetos, por exemplo.

Se por um lado são apresentas as dificuldades do caminho, por outro temos os atributos que devemos procurar cultivar que facilitarão o desenvolvimento de um estado de paz mental que me permitirão ter mais espaço interno para refletir sobre quem sou:

  • maitrī – Amizade. Cultivar a amizade e empatizar com a felicidade daqueles que se sentem bem, ao invés de sentir inveja.
  • karuṇā – Compaixão: Colocar-se de forma sensível a dor do outro.
  • muditā – Entusiasmo: Sentir-se animado e entusiasmado por aqueles cujas ações respeitam o dharma, ou seguem uma conduta ética na vida.
  • upekṣa – Equanimidade: É preservar-se para não ser arrastado para situações de enganos, confusões e conflitos emocionais intensos por pessoas que não seguem uma vida ética e moral – ou adharma.

Se estou tomado pela inveja ou rancor, dificilmente verei minha própria vida ou a mim mesmo com clareza e portanto, meus próprios esforços possivelmente serão feitos de forma turva, enviezada. Esses quatro atributos não são um fim, mas um meio de reflexão que me ajudarão a me manter atento a como me relaciono com o outro de forma ampla durante minha caminhada.

Portanto, o que temos até aqui? Sabemos que a prática de yoga deve ter os elementos da prática propriamente dita (abhyāsa) e de um certo desprendimento de expectativas (vairāgya); devemos nos manter alertas aos nove obstáculos (antarāyā-s); nos direcionarmos para as 4 formas de cultivarmos uma atitude mental (bhāvana) de paz. Mas não podemos dizer que temos um caminho, um método prático desenhado até aqui. Como acontece então essa prática de forma sistemática?

Esse é o caminho de kriyā yoga e aṣṭanga yoga.

Kriyā Yoga é o caminho preliminar de yoga ou a porção mais externa da prática e deveria acompanhar cada pensamento ou ação. É o yoga do cotidiano e é formado por três partes inseparáveis.

Primeiro precisamos começar nosso caminho, colocar os pés na estrada e para isso é necessário esforço. Tapas é a palavra que mais define a ideia de esforço no yoga. Mas esse esforço requer uma direção requer inteligência, reflexão, autoconhecimento e conhecimento do caminho a ser trilhado – a isso chamamos svādhyāya, o processo de autoanálise com um apoio de uma tradição de autoconhecimento. Ao mesmo tempo, essa reflexão deve nos levar a entender até onde podemos ir, o que está sob nosso controle e o que não e entendermos que, por mais que nos esforcemos, os resultados de nossos esforços não estão em nossas mãos. Essa qualidade de reflexão chamamos īśvarapraṇidhāna. Tapas, svādhyāya e īśvarapraṇidhāna andam sempre juntos e deveriam pautar todas as nossas reflexões do cotidiano.

Para alguém que está começando seu caminho no yoga, a prática de āsana (as posturas) e prāṇāyāma (as respirações) podem ser compreendidas como tapas; as práticas de reflexão e estudo como svādhyāya e as práticas de meditação como īśvarapraṇidhāna. Mas não será sempre esse formato. Por exemplo, para uma determinada pessoa, tapas pode ser dormir cedo, levantar cedo e fazer uma caminhada; svādhyāya pode ser a conversa com o professor de yoga individualmente em um processo de reflexões e aconselhamento e īśvarapraṇidhāna pode ser frequentar uma novena. Outra possibilidade seria uma mudança de dieta como tapas, um relaxamento consciente diário como svādhyāya e passeios frequentes na natureza como īśvarapraṇidhāna. Os três devem ser usados conjuntamente em outros esforços na vida: me esforço de forma inteligente e com foco no esforço, não no resultado.

Mas ainda assim, mesmo com kriyā yoga o esforço pode não ser tão claramente pautado e se queremos entender detalhadamente os contornos da forma como o yoga propõe como pode ser o processo de dedicação ao caminho de autoconhecimento, temos que entender aṣṭanga yoga.

Aṣṭanga yoga é a prática formal de yoga, é onde será colocado o esforço real. É formado por yama (relacionamento com o outro), niyama (relacionamento com si mesmo), āsana (relacionamento com o corpo), prāṇāyāma (relacionamento com a respiração), pratyāhāra (relacionamento com os sentidos), dhāraṇā (concentração), dhyāna (relacionamento com o objeto de meditação) e samādhi (resultado da meditação).

Aṣṭanga yoga é quando reservamos um horário do dia e paramos para executar essa prática que necessariamente terá os elementos de āsana, prāṇāyāma e dhāraṇā. Os outros cinco se relacionam a esses três intrinsecamente. Aṣṭanga yoga terá orientações muito mais precisas e detalhadas sobre a forma da prática e como se relacionar com o esforço correto. Por exemplo, quanto a prática das posturas, veremos que elas devem ser firmes, porém confortáveis; devemos ter um esforço relaxado e inteligente e também uma atitude meditativa de grande internalização. Já temos muitos detalhes sobre o esforço.

É aqui que encontrarei orientações de direcionamento das minhas reflexões mais profundas sobre como me relaciono com a violência do mundo, minha sensação de posse sobre coisas ou pessoas, sobre como me relaciono com os apelos dos meus sentidos ou o quanto posso me sentir satisfeito com aquilo que tenho – entre alguns exemplos possíveis.

De forma um pouco mais livre, eu diria que aṣṭanga yoga é quando levo para a prática tudo aquilo que me afeta em um momento, um período, um recorte da vida e procuro fazer uma digestão saudável disso. Kriyā yoga é quando levo os aprendizados conquistados na prática, para a vida, testando-os, colocando-os à prova. As duas práticas andam juntas.

Mas mesmo assim, mesmo com todas essas orientações nossos esforços irão variar ao longo da vida em intensidade, qualidade e duração. Pensemos em uma mulher que engravida e tem um filho. Antes da gravidez poderia ter uma enorme dedicação praticando todos os dias posturas intensas, meia hora de prāṇāyāma, lendo, conversando com o professor, refletindo sobre seu caminho de yoga. Durante a gravidez, possivelmente seu foco mudará e ela passará a se preocupar um pouco mais com a gestação, as mudanças do corpo e tantas outras demandas biológicas, emocionais e sociais. Sua prática mudará para se adaptar e preparar para a nova realidade assim como suas leituras e conversas com o professor possivelmente também mudarão um tanto. Até mesmo respirar se torna difícil! Como o nascimento do filho, é provável que muita coisa precise ser deixada de lado por algum tempo para que possa haver mais dedicação ao puerpério.

Da mesma forma, nossos esforços mudarão no inverno rigoroso ou ao longo dos anos com o envelhecimento. Ou ainda de acordo com outras mudanças da vida, como o falecimento de um ente querido, uma separação ou casamento. Por mais óbvio que isso possa parecer, não nos damos conta disso. Não percebemos de fato como o mundo muda o tempo todo e como nossos esforços mudam com ele. O que percebemos mais facilmente é a culpa em não agirmos como gostaríamos de agir.

Mesmo com todas as orientações sobre como deveria ser a prática de yoga, podemos incorrer em uma enorme quantidade de enganos e confusões. Podemos nos enganar sobre nosso próprio corpo, sobre o papel dos sentidos e sobre nossas emoções. Somos muito mais complexos do que em geral imaginamos.

Essas orientações todas vistas até aqui são, no final das contas, anotações em livros e por mais profundas que sejam, não são capazes de tocar a enorme complexidade que forma cada um dos indivíduos.

E é aqui entra o elemento chave da prática de yoga, aquele que é indispensável, além de todas as listas acima – o professor de yoga. Aquele que está também trilhando o caminho de yoga porém com mais experiência e que pode auxiliar o aluno e enxergar com mais clareza seus próprios enganos. No relacionamento frequente professor-aluno, um a um, o yoga está vivo, vibrante e com todo seu potencial de transformação. Nos livros (em suas mais diferentes versões), são só palavras que podem ser levadas intelectualmente para onde se desejar. No professor o ensinamento segue vivo, sustentado pela experiência, pela força da tradição. É o professor que ajudará o aluno a entender a intensidade e direção do esforço em todos os diferentes momentos da vida. O professor olha nos olhos do aluno, ouve sua respiração, suas dores, seus lamentos, suas alegrias e felicidades, o acompanha em suas vitórias e derrotas e conhece o aluno de forma como um livro, passivo como é, não pode fazer.

O professor é, portanto, maior do que as escrituras pois o professor está vivo e yoga só acontece quando há vida, pois, yoga trata da vida. Os professores e alunos do passado descascaram seus próprios abacaxis, esses abacaxis de agora, somos nós que temos que descascar.

O professor, claro, também tem seu professor.

 


Os termos citados nesse texto aparecem na principal escritura do yoga, o Yogasūtra do sábio Patañjali. Saiba mais aqui.

Foto por Wayne Lee-Sing do site Unsplash

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